PORQUE HOJE É SÁBADO



 1 – Tem gente que muda de jeito como quem muda de roupa. Basta assumir uma função importante para deixar de lado hábitos antigos e adotar maneiras que combinem com o cargo. Mas isso não é, felizmente, regra. Conheço pessoas que passam pelos cargos sem que os cargos deixem suas marcas. Uma delas é o desembargador Márcio Murilo da Cunha Ramos, o menino de Doutor Miguel Levino. Hoje é presidente do Tribunal de Justiça, mas continua trocando idéias com a gente no Facebook, criticando quem mereça ser criticado e elogiando que deve receber elogios.

2 – Alguém falava em bredo de Semana Santa. Bredo é um mato que nasce em qualquer monturo. Um mato que passa o ano inteiro esquecido, mas que na Semana Santa assume ares de raro paladar e é perseguido por todos aqueles que adoram um bom peixe no coco com, adivinhem, bredo. E é gostoso, com sabor de quero mais, doçura de um passado que bole no coração e faz ressurgir uma lembrança misturada com a saudade de um tempo que se foi e não volta mais.

3 – Eu lembro. Nos tempos de bom inverno, quando o Macapá enchia e os açudes sangravam, o velho Miguel Fotógrafo pegava a tarrafa, um balaio e seguia para a pescaria. Nós, os sambudos, íamos juntos. Perder aquela festa? Jamais! E à cada jogada da tarrafa, dezenas de piabas e corrós caiam no balaio. E a meninada festejava como se fosse o maior acontecimento do mundo.

3 – No final da aventura, o balaio voltava para casa cheio de peixes. E dona Emilia tirava o fato deles e depois jogava na panela para a gente comer com bredo, arroz do Piancó e feijão verde tirado da roça e debulhado no batente de casa em meio as boas conversas das comadres e compadres.

4 – De vez em quando aparecia alguém pedindo um jejunzinho, que nada mais era do que um adjutório em forma de comida para quebrar o jejum do devoto de Jesus Cristo. Era na Semana Santa que o pobre mais comia, jejuano.

5 – Aquela cena do jejum levou o menino de Seu Miguel a fazer a mesma coisa em rua distante. A cuia na mão, o bisaco de pano pendurado no ombro, e haja “me dê um jejunzinho”. Pena que Seu Miguel tenha visto na metade da operação e obrigado o menino a correr pra casa com a bunda ardendo depois da lapada de cinturão.

6 – Seu Vigó e Zé Carnaíba eram os pescadores mais afamados. Eles exibiam seus troféus e os vendiam de porta em porta. Traíras enormes, aquelas de lombos pretos, eram retiradas do Açude Velho pelos anzóis dessa dupla e depois saboreadas pelos que podiam comprar.

7 – Quem não podia, contentava-se com o bacalhau do Governo. Um bacalhau salgado, chegado em caixotes de madeira e comido às escondidas para os vizinhos mais abastados não mangarem da pobreza franciscana dos comensais. Isso mesmo, meu estimado amigo, bacalhau já foi comida de pobre.

8 – Na Sexta da Paixão, ninguém tomava banho ou comia, para não pecar. Era o dia da morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e tudo era pecado. As mulheres da Rua da Lapa fechavam suas portas e deixavam os pecadores só na vontade. Até o sino silenciava. O sacristão Dão Mandu tocava a matraca, que era um ferro adaptado numa tábua de madeira. O seu toque parecia um soluço.

10 – Mas no Sábado de Aleluia, depois que Jesus ressucitava e o Judas traidor era despedaçado pelos tiros de espingarda de Seu Duquinha e pelas bombas de Pedro Fogueteiro, a festa rolava no centro. Era forró em toda esquina, baile de rico no Clube, leilões na porta do convento e menino sendo fabricado entre as pedras da Lagoa da Perdição.

11 – E agora lá se vão meus abraços para Isaias Gualberto, João de Carlota, Chico de Nadir,Tonheca de João de Oliveira, Mário de Simpilício, Mitonho de Mourão, Bicudo Massaroca, Dionísio de Vitalina, Wilson de Maria Buchim, Antonio de Zé Sobreira, Severino de Corina, Bezinho de João Fernandes, Mundinha Macaxeira, Lurdes de Zé de Biró, Lurdinha Filizardo, Gil de Né Caipora, Luizinha de Fila, Lurdes de Carmélia, Preta de Luizinho, Maria de Tia e Lurdes de Abdias.

12 – Chicão é um sujeito mais grosso do que tronco de baraúna. Todos os seus conterrâneos de Uiraúna sabem disso.

Dia desses, chegou em casa meio despranaviado, com umas duas meiotas no quengo. Abriu a porta e encontrou a mulher deitada numa rede, reclamando:

-Chicão, tá me dando uma coisa!

Sem ao menos parar para ouvir direito a mulher, ele recomendou, lá do corredor da casa:

-Não receba, ôxente!




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